A Farpa que Infeccionou São Paulo

Quando a farpa entrou no meu dedinho do pé, irritou. Ou só queria ela fora porque incomodava. Só que a farpa infeccionou. Invejei Spider Jerusalem e lamentei aquela casa na montanha que ele deixou quando voltou para o caos. Ah! Eu só queria fugir pra montanha - ou de preferência para perto do mar, que não vejo há meses.

Estou cá com meu recolhimento, pensando que cancerianos não deveriam usar FourSquare porque se limitam ao mundo que envolveram em sua concha. Não posso ler nem escrever com o barulho das britadeiras durante o dia. E quando chega a noite sou incomodada pelos helicópteros, bombas e o barulho da revolução. Caramba, mas que baderna vocês estão fazendo por míseros vinte centavos!

A farpa da manifestação atingiu o shopping onde passeio com minha família, destruiu o caminho que uso diariamente e agrediu meus amigos. "Suas burguesas" foi o que elas ouviram enquanto voltavam do trabalho, desavisadas, entre uma zona de guerra que só se vê em filmes ou em gibi cyberpunk. Burguesa que sou eu, revoltei por elas que não são.

Um dia me contaram como o Brasil influenciou o sistema de compartilhamento do Facebook. Não sei se é real, mas o caso consiste na mania adorável do nosso povo em... em compartilhar tudo! Eram tantas imagens e vídeos republicados que os servidores ficaram sobrecarregados, por isso agora podemos dividir tudo usando links. E vocês podem me lembrar que é Sexta-feira, mostrar gatinhos fofos, latinhas de refrigerante com nome, memes, piadas, indiretas e afins. Ou...?

Ou podem deixar Feliciano com a corda no pescoço, podem contar para os eleitores quem é Celso Russomano e até ferrar com a nossa imprensa unilateral, como fizeram ontem. Porque os corajosos largam - em partes - o Facebook e vão às ruas! Em parte, lógico, porque hoje celular com acesso à internet não é mais só para burguês covarde - como eu - que fica em casa. E os relatos, fotos e vídeos foram postados em tempo real enquanto o nosso jornalismo super confiável mostrava o contrário!


Enquanto a mídia sensacionalista chamava as mais de dez mil pessoas que pediam não à violência, o apresentador da TV chamava todos de drogados: "Pedem paz, mas depois são pegos com crack". Meus amigos estavam lá. Meus amigos que não usam drogas. Amigos que apanharam de graça após terem se afastado da manifestação. Amigos que só tentavam voltar pra casa. Amigos que só queria exercer o direito de manifestar o que pensam - democracia?

E então? Então aquela aquela farpa infeccionou. Porque eu, a burguesinha que defende o direito de ir e vir de amigos trabalhadores agredidos verbalmente por meia dúzia de manifestantes (que não me representam), estou lá também, de forma indireta, representada por amigos e conhecidos que estavam lá no meio da revolução, exigindo não só garantir os dezoito reais mensais no bolso ao fim do mês,  como questionando os atos absurdos de um governo desleal. Atos esses que me levam à reclusão e à revolta silenciosa.

Ah, claro, porque ninguém quer saber porque a burguesa covarde se escondeu na montanha enquanto pensa se volta a tomar Prozac ou não. Como esse é o meu espaço, minha concha, eu conto o motivo: a violência. A crescente e impune violência. Os estupros. Os pedófilos. E até a zoofilia "engraçada" que a mídia apresenta. Então, por favor, considerem o meu real motivo por condenar a violência. Ela tem sido a causa de todos os males. O que faz sofrer todos que amo! Sejam cristãos ou ateus, policiais ou manifestantes, de direita ou de esquerda, burgueses ou não. 

Quem enche com água de todas as fontes, transborda o cálice. Um dia você é desavisada e no outro entende o que esses vinte centavos e o crescente aumento da violência, sempre impune, têm em comum. Um dia, você que é contra a violência, condena a agressão verbal dos manifestantes (que ainda não me representam) e o vandalismo dos mesmos. No outro, você lembra o quanto ficou indignada com a venda de um tal de Neymar (protagonista de uma campanha de marca de cuecas homofóbica) conseguiu ofuscar uma manifestação pacífica (no caso, a Parada Gay) nessa mídia unilateral que nos serve. 

Hipocrisia por hipocrisia, quem é mesmo a defensora dos "vingadores"? Quem queria que o amigo policial não fosse condenado pela própria instituição por descer porrada no estuprador pego em flagrante (bater em manifestante pode e em bandido não)? Quem era que queria se vingar de estuprador que abusou de quem eu amo porque as autoridades nada fazem? Então, a burguesa hipócrita. 

Ainda odiando a depredação do patrimônio público e pensando que a conta cai no meu bolso também, permaneço agora pensando que o resultado de um quebra-quebra questionável que ocorreu já deu frutos. Os vinte centavos podem ainda estar na tarifa e naquele "momento Rauzito" eu diria: eu vi petista questionando o PT, eu vi tucano questionando PSDB, eu vi jornalista questionando o seu próprio veículo, vi policial questionando a PM, vi viciados em futebol questionando a Copa, vi gente de direita com gente de esquerda, vi gente de esquerda com gente de direita e vi manifestante condenando a violência. 

Eu vi manifestante condenando a violência! E condenando a "Bolsa Estupro", o PEC 37, o Feciciano, o Russomano, a imprensa unilateral, os políticos corruptos de todos os partidos, os homofóbicos, os machistas, os psicopatas e os babacas em geral! E, daqui da minha insignificância burguesa, por mim podem ser colocados todos is itens no mesmo saco para que sejam jogados na correnteza do rio para que nunca mais voltem!

E, por favor, que nunca mais a polícia interdite a Paulista para que os manifestantes não interditem a Paulista! Que nunca mais a polícia seja violenta para impedir que manifestantes sejam violentos! Menos. E mais ao mesmo tempo!

Hard Sci-fi Dream

Eu fui retirada da rua por um casal. Estava frio lá fora e minhas roupas eram apenas trapos acinzentados. Enquanto me carregavam para o que parecia ser um luxuoso hotel, escutei o diálogo que me deixava com a nítida sensação de estar drogada. As palavras eram sintéticas como em festas de música eletrônica.

- Bem na nossa vez acontece algo assim - disse a garota.
- Talvez isso seja bom - ele respondeu.
- Não sei, acho que não devemos levá-la!
- Nós temos que levá-la!

Os bee-pees cessaram como se nada tivesse acontecido.

Ambos me acompanhavam até o refeitório enquanto explicavam as intruções sobre o processo de alimentação. Apenas um item de casa mesa e nada mais do que isso. E seria o bastante, garantiram.
Estavámos no hall do elevador. A garota tinha cabelos negros nos ombros e um semblante fechado, eu podia notar sem a menor sombra de dúvida que ela não estava satisfeita com a minha presença. Ele era franzino, tinha pele morena, olhos castanhos e dentes muito brancos que não se continham dentro da boca. Remetia curiosidade e simpatia. Seus olhos me investigavam sem pudor e o sorriso era insistente. Nós três éramos quase da mesma altura, sabia isso porque nós entreolhamos sem movimentos verticais do pesçoso. Eu não sabia reponder as perguntas que ele me fez, nem mesmo qual era meu nome.

Outros nos rodearam, garotos e garotas. Todos bem jovens. Não pude reparar significativamente nenhum deles. Logo a curiosidade do rapaz se tornou recíproca mesmo que eu mal conseguisse acompanhar o que ele dizia. A sua curiosidade exalava em forma de palavras metralhadas em minha direção. Lembro de ter pensado que alguém capaz de perguntar tanto, talvez fosse o único capaz de responder tanto. Os demais curiosos eram também receosos. Menos ele. Ele era comunicativo. Aberto. Parecia feliz com a minha presença.

O elevador parou e todos entraram freneticamente enquanto nós dois não percebemos a movimentação. A garota de cabelos negros passou por nós e perguntou ironicamente se ficaríamos ali parados ou aproveitaríamos o horário da refeição. Em seguida, entrou junto aos outros e fixou o olhar em mim. Em seguida, franziu o cenho para o amigo (ou namorado?) em sinal de reprovação. Ele fez menção para que eu passasse na frente, foi quando a acessorista nos interrompeu:
- Só cabe mais um!
- Eu vou no próximo - disse ele.

Plim!
O outro elevador estava aberto e vazio, ambos lado a lado, como uma escolha sem volta. Não interrompi meu caminho, entrei e as portas se fecharam atrás de mim. Eu estava em pé ao lado daquela garota de cabelos negros. Reparei que os olhos eram igualmente negros. Olhos assustadores que brilhavam com se fossem apenas enormes pupilas dilatadas. O ar se tornou rarefeito. É assim que começam aqueles ataques. Não me lembro deles, apenas de conhecer o processo. Eu sabia que logo meu coração estaria batendo naquele sininho que existe na garganta, aos berros, garantindo que sairia bela boca de forma iminente. Talvez tenha sido ele mesmo quem fez um nó ali, causando a sensação de náuseas. Logo as tonturas chegaram. E com elas a minha primeira lembrança anterior ao momento em que fui resgatada pelo jovem casal: alguém havia me explicado que se tratava de despersonalização e não tontura. Lembrei que era uma voz masculina. Fechei os olhos. Talvez se evitasse a imagem daquela pequena multidão fechada dentro de uma pequena cabine claustrofóbica, tudo cessasse. E talvez eu pudesse evitar o pior ao me despir de todo o pânico na frente daqueles desconhecidos.

Eu ainda não sei se finalmente desfaleci de verdade em uma crise ou se de fato a sensação passou subitamente.

Plim!
O outro elevador estava aberto e vazio, ambos lado a lado, como uma escolha sem volta. O rapaz inclinou rapidamente a cabeça, gesticulando para que eu o acompanhace, entrei e as portas se fecharam atrás de mim. Eu estava em pé ao lado daquele garoto de olhos curiosos e sorriso aberto. Até então, eu não sabia como eu era fisicamente. Baixa, pequena e com olheiras profundas. Eu mais parecia aquelas pessoas que vivem em baixo das pontes e são gradualemente consumidas pelas drogas. Só o meu cabelo parecia destoar do resto. Loiros muito claros, curtos e bem arrumados com uma franja de lado. Era como se tivessem pincelado amarelo na figura de alguém tão sem cores que se tornou uma mistura de tons neutros desenhada com sobras que exageram expressões. Oras, mas quem diabos sou eu?

- Você não fala muito - concluiu o rapaz.
- E você é bem falante - resmunguei.
- Se não estiver com fome, posso te levar conhecer os dormitórtios.
- Não sinto fome - menti, meu estômago doía, mas eu só queria fugir da multidão.
- As pessoas mais legais não descem para o refeitórios nesses momentos.
- Pedem serviço de quarto?
Ele riu.

Eu nunca gostei de comer nos horários estipulados por hóteis, mas costumava gostar tanto do desdejum que eles ofereciam e até despertador eu programava para não perder a hora. Foi mais uma lembrança de quem eu era, mesmo que eu não consiguisse conectar à qualquer imagem, sabia que gostava de tomar café da manhã nos lugares onde me hospedara.

Enquanto explicava sobre as pílulas que as pessoas que não iam ao refeitório usavam para se alimentar, ele batia na porta de amigos que deveriam nos receber. Os primeiros estavam vazios, eu não sei como ele entrou. Não tive medo, apenas reparava em como eram diferentes uns dos outros. Os leitos. Um parecia um quarto de motel, com uma imensa banheira redonda no centro. Outro era todo branco. Mal me lembro dos outros, a memória se dizimou quando entramos no último. Em comum apenas o fato de que não existiam camas.

A garota que nos recebeu morava em uma biblioteca. Ela tinha livros, discos de vinil e uma máquina de escrever. Marrom e verde musgo dominavam o ambiente junto capas de publicações antigas. O telefone dele tocou, deixando-o tenso. Em seguida pediu para sua amiga cuidar de mim e não me deixar sair até que alguém viesse me buscar. Ela me ofereceu uma pílula e um cigarro.

- Então, você não sabe mesmo de onde veio?
- Não sei de nada - respondi, recusando o cigarro.
- Não sabe nem a sua idade?
- Não. Por quê? Qual a sua?
- Trinta e nove de vida. Fisiologicamente estagnada desde os dezenove.

Não sei, não me perguntem. Ela tinha cabelos cacheados e castanhos e parecia uma jovem intelectual que fuma, bebe muito e não faz exercícios. E não, não parecia que ela era assim desse mesmo jeito há vinte anos!

O homem completamente careca e alto que entrou no quarto parecia mais velho. A primeira pessoa que aparentava ter passado dos vinte com quem eu já tinha cruzado naquele lugar. Passado dos vinte, dos trinta e provavelmente estagnando entre os quarenta e cinquenta. Olhou para o cigarro na lixeira. A garota torceu os lábios. Talvez fosse proibido e pensei que ele iniciaria um discurso. Limitou-se a balançar a cabeça sorrindo.

- Inacredítável - resmungou.
Silêncio.
- Bem, garota, você não sabe do que somos capazes.
- Não, não sei. Nem ao menos onde estou!
- Mais uma rebelde.

Eu não sabia porque estava agonizando de raiva. Não lembrava de nada, meu corpo estava dolorido e nitidamente se desfazendo em qualquer lugar onde eu estivesse antes. O impulso era de fugir daquele lugar de loucos. Era assustador e eu queria ficar o mais distante possível daquelas pessoas. Menos o rapaz! Então, de repente eu senti apenas preguiça de seguir meus instintos. Entre a promessa de uma liberdade gelada e uma prisão quente, eu estava cansada e sentia necessidade de conforto como se isso fosse a única garantia de sobrevivência. Não, eu não queria ser mais uma rebelde.
- Não, eu não quero ser mais uma rebelde.

- Ótimo, você tem muito a nos oferecer! Nunca tivemos acesso à alguém de fora. Vamos subir, o seu quarto vai exigir mais complexidade do que esse bloco pode oferecer! Temos pouco tempo para que você se adapte antes da Estagnação.

A Perdida nas Cores da Casa

Qualquer semelhança com a vida real é mera coincidência. E o fato de eu ter sido vista andando pela Casa Cor usando uma blusa meio cinza com uma caveira de pedrinhas brilhantes do Ed Hardy não tem nada a ver com a (es)história abaixo. E eu não sou cínica.
 
Passeio no Joquei Clube para ver os ambientes decorados da mostra é básico. Todo ano mesma coisa. Repetir, repetir, repetir até ficar diferente. E dessa vez foi mesmo de outro jeito. Assim como a publicação.

Das coisas que gosto (seriado de psicopata, ficção científica, mostra de decoração e música brasileira - por enquanto) eu tenho falado AQUI, no viciante Be Style. Quer ver as fotos do evento? Corre lá ver!

 
.............. MAS ..............

 
Se vocês querem saber o que temos aprontado por aqui, vou logo contando algo que muda tudo na vida: a rede. Não tem nada mais gostoso do que ter uma em casa. Sim, sim, é muito mais útil do que ter uma banheira, por exemplo.

Bate um sol, você abre um livro e toma um café fresco. Na rede.

Para quem não lembra: os móveis antigos são herança de família, sofás reformados recentemente e o papel de parede está colado aí há bastante tempo esperando a finalização do espaço. A reforma desse apartamento está na marcos dos três anos e meio!

É o momento em que eu penso: será que estamos na reta final?

A varanda interna pintada de amarelo ouro com acabamento brilhante é novidade. É, é, deu medo logo na primeira "pincelada", mas simplesmente não conseguimos imaginar outra solução. Estava ainda com tinta branca desde a mudança e eu, olha, eu gosto de muita cor!

A rede precisou ser chumbada na parede. Todo trabalho é obra do Amore porque reformar com pouco dinheiro significa meter a mão na massa mesmo!

Eu sempre achei que a outra cor dessa sala seria turquesa. Não achei nada nessa cor para enfiar no espaço. Só o pufe da Tok Stok, mas ele ia virar arranhador de gato. Eu ainda não desisti da mistura, não. Vermelho, dourado e... turquesa. Será?

Três Perdidas e a Falsa Varanda

Bê, Emy e Vê são três amigas sentadas na varanda falsa de uma casa sem varanda. Tomam vinho enquanto Bê choraminga suas frustrações.

- Existem três coisas que eu não consigo entender como sumiram - voz triste - três coisas que eu adorava e sumiram. A minha aliança, cara, como será que eu fui perder minha aliança? Será que eu já estava sem ela em Brasília? Porque o pessoal do hotel teve que me mandar uma porrada de bijous douradas que ficaram esquecidas no cofre do hotel. Monte de coisa barata que minha filha enfiou no cofre porque era um monte de coisa barata dourada.
- Co-mo-as-sim-vo-cê-per-deu-sua-a-li-an-ça?!? - Emy fala em pausas quando fica indignada.
- É, mas não foi lá não. Eu não vejo essa aliança há muito tempo. Pior que nem tinha valor material, custou uma mixaria, mas era a minha aliança, porra!

Vê continua em silêncio. Seu rosto se volta para Bê e depois para Emy, como se assistisse um jogo de pingue pongue.

- Não acredito que você perdeu sua aliança - Emy balança a cabeça.
- Pior é a Blusa, Emy! Sabe aquela blusa? Ainda não encontrei.
- Ué, Bê, você não tinha encontrado? Fomos no Ramona quando você encontrou ela!

Emy resume o caso para Vê se inteirar: Bê ganhou a blusa do irmão em um Natal, adorou. Depois de usar a blusa duas vezes, ela desapareceu. Por meses e meses Bê refez todos os passos pensando onde diabos poderia ter esquecido a tal blusa. A última vez, tinha usado no aniversário de Emy e, só por via das súvidas, perguntou se não tinha ficado com ela. Só por via das dúvidas, já que Bê lembrava completamente de ter voltado pra casa vestindo a dita cuja. Não, não foram os manobristas, ela entrou com a blusa em casa e nunca mais saiu com ela. O marido de Bê achava que ela tinha esquecido em algum lugar. Mas foi no home office na oficina dele que, um tempão depois, a sogra de Bê foi dar um trato e acabou encontrando a blusa. Então Bê saiu com ela para jantar com Emy. E depois nunca mais viu a blusa.

- Ai, amigããã, você não sabe como eu amava aquela blusa - Bê dramática se vira para Vê - com a caveira do Ed Hardy!
Vê franze o cenho, solta fumaça de cigarro de um jeito escandaloso que só ela sabe fazer. 
- É uma meio cinza, com uma caveira de pedrinhas brilhantes? - Vê pergunta - Porque se for você me deu ela, caralho. Eu uso pra dormir.
Choque. Emy paralisa.

- Não, não, não! Não pode ser a mesma, Vê! Como ela teria ido parar com...
Bê lembra que deu absolutamente todas as suas roupas de uns vinte quilos atrás para Vê, numa bolsa enorme com rodinhas e tudo. Extatamente todas as suas roupas de vinte quilos atrás. Não aquela enorme que fica grande até em Bê, a gorda.

- Ai, carai, veio no meio daquelas coisas lá que você me deu, é grande pra porra eu uso pra dormir! 
- Mentira! Isso não está acontecendo... Se for... Se você me devolver te dou o sapato do meu casamento.
Emy entra em choque.
- Não Bê, não precisa dar o sapato do casamento, ela te devolve! Você já perdeu a aliança!
- Eu te devolvo, caraio, deixa eu ir lá buscar - porque Vê ainda por cima tem dormido na casa de Bê, dormido na casa de Bê com a blusa sumida de Bê. E a Bê, retardada, não reparou.

Ah! Bê já colocou o sapato do casamento na sacola de doações há duas semanas, só quis ser mais dramática propondo uma troca pela tão amada blusa. Tem uns apegos estranhos e uns desapegos mais bizarros ainda!

Vê voltou com a blusa. A blusa meio cinza de caveiras com pedrinhas brilhantes do Ed Hardy. 
- Caraio, Bê, eu te mostrei uma foto minha com essa blusa há dez minutos.
Emy continua chocada. Essa Bê é mesmo muito desligada!
- Não acredito!
- Olha aqui, porra!

E lá estava: a foto da Vê de calcinha do Ramones levantando a blusa-pijama na frente do espelho do banheiro do hotel. Bê sai correndo com o celular da Vê na mão, para mostrar aquela situação bizarra para Emy que já tinha saido chocada da varanda. 

Também fugia do marido curioso e dasavisado que queria saber o caso da blusa, mas não podia ver a foto que a Bê tinha visto há dez minutos sem reparar na porcaria da blusa. E quem ia reparar na blusa se tinha uma calcinha do Ramones na foto?

- Sai pra lá, Amore, essa foto você não vai ver, não! 
O desavisado não sabe o que está acontecendo, mas pôde ver com seus próprios olhos a blusa desaparecida nas mãos da esposa que não tinha perdido as esperanças de rever o item perdido.
- Eu disse que você tinha colocado nas sacolas de doar, Bebê. - Sim, ele disse.
- Só que você disse isso da outra vez, não dessa. - Bê responde.
Vê diz que vai lavar pra devolver pra Bê, que não quer nem saber de lavar e vai usar no dia seguinte.

A aliança que custou uma mixaria, mas tem valor sentimental para Bê, continua desaparecida. Ela também perdeu um anel em formato de tecla ESC. Se alguém encontrar, favor entrar em contato. Não, Bê não te deu o anel, não. Ela usou a blusa no dia seguinte para quatro eventos no mesmo dia.

A calcinha do Ramones você compra na Sexy Sadie.

Papo de Elevador

Eu poderia mudar o nome do meu blog para "Papo de Elevador". Venho aqui contar como está o tempo e... só? 

Quando você der de cara comigo, após me desejar um bom dia, vai mesmo perguntar como é que eu estou passando? Só por educação, afinal não espera que eu responda a verdade. Talvez eu diga que está frio, que eu descobri que odeio o inverno e não suporto usar meias. Ops! Detalhes demais.

Qual é o problema das pessoas, afinal? Depois que ficam velhas não querem mais saber dos detalhes, principalmente os sórdidos. Depois dos trinta tudo virou pecado ou algo do gênero? Você não é o cara do elevador, é meu amigo, e fica com o rosto avermelhado quando eu falo algo um pouco íntimo ou um pouco bizarro. Afinal, são detalhes demais.

Eu uso óculos escuros para não conversar com você, desconhecido, no elevador. Eu finjo digitar no celular para desviar qualquer possibilidade de aproximação. Eu uso as escadas para não conviver com vizinhos. Não reconheço gente famosa que atendo no trabalho, imagine se vou lembrar da cara de alguém lá do meu prédio? Mas confesso, com detalhes demais, que eu sei como um deles geme quando transa com outro homem no banheiro da lavanderia.

Ah, você perguntou como estou? Estou viciada em livros eletrizantes. Em alguns seriados bizarros. E raramente vejo um filme bom daqueles que quase não se fazem mais. Tudo com detalhes demais. Porque as pessoas de verdade com suas privacidades intocáveis e elevadas aos pedestais de semi-perfeição, estão se tornando entediantes e envergonhadas. Sentem vergonham, principalmente, pelos outros. A tal vergonha alheia. De gente que, assim como eu, é chegada em dar detalhes demais

Vamos começar? Não, melhor não. Sem detalhes sórdidos por hoje. Sintoniza na Alpha FM e vamos pensar na previsão do tempo, ok?

A visão do Homem

Não contem, hein? Confio em vocês. Mas eu acabei de afanar descaradamente algumas fotos do Instagram do meu marido. Só aquelas que onde ele registrou cantinhos da nossa casa.









Tão feio que ficou bonito...

Aquela chuva típica que não existe mais e hoje apareceu logo cedo. Garoa forte. Lindo! No escritório a luz é artificial. E tem aquele vai e vem de sirenes. Um dia meio I hate it here (o que me lembra quem nem abri o Transmetropolitan que comprei - o que me lembra que estou ansiosa para colocar o Darth Vader na parede). Já viraram passado os três primeiros meses do ano. E com eles partiu o calor. Minto, o Brasil continua quente, mas o sol praiano se foi da minha vida. O litoral hoje é uma epidemia de dengue com estradas bloqueadas. Pelo menos é o cenário que pintam. Enquanto isso, pessoas "desinformadas" provavelmente esticam suas cangas na areia nesse exato momento. Felizes. Porque em algum lugar é um dia ensolarado e sem luz branca artificial. Sempre existe algo em paralelo. E olha que eu até gosto dos dias de chuva. Imaginei o momento perfeito tão logo levantei da cama: escolher um dos meus livros novos e deitar naquela rede ao lado da janela onde poderia ver e ouvir a chuva. Os gatos em volta. Um café espresso caseiro. Algo assim bem simples. Sem luz artificial. Sem se preocupar com a faxina por fazer.
Pausa. Melhor eu abrir a janela.


Agora tenho luz natural. E um reflexo filho da puta bem na tela do meu computador. Mas o dia está nublado e meus olhos não vão lacrimejar desse jeito. É um dia feio que faz São Paulo ficar mais bonita. Os prédios asquerosos parecem combinar com o cenário em dias assim. Daqui vejo aquele ali com a cor que eu descreveria como "verde-diarréia". E janelas com uma cor que eu descreveria como "marrom-bosta-de-neném". Ele se destaca porque os outros são beges e cinzas (tipo da mesma cor do resto da cidade hoje). Tudo sempre feio. Menos hoje. Vai ver que hoje eles combinam com a tempestade que chega e é castanha da cor dos seus olhos ou algo do tipo. É, tenho que concordar (who cares?), o céu azul não orna com essa cidade. Sempre que faz sol, tenho vontade de fugir! Para bem longe - o mais longe possível - daqui. O que não acontece em dias assim. Em dias assim eu só quero o direito de um momento pseudo-depressivo com minhas histórias de gente que não bate bem dos pinos. "O que adianta não ver noticiários se você assiste esses filmes malucos, lê livros de psicopatas e assiste seriados que passam na AXN e na Universal Channel?". 
PS: Quem disse que era pra adiantar alguma coisa?