Quando a farpa entrou no meu dedinho do pé, irritou. Ou só queria ela fora porque incomodava. Só que a farpa infeccionou. Invejei Spider Jerusalem e lamentei aquela casa na montanha que ele deixou quando voltou para o caos. Ah! Eu só queria fugir pra montanha - ou de preferência para perto do mar, que não vejo há meses.
Estou cá com meu recolhimento, pensando que cancerianos não deveriam usar FourSquare porque se limitam ao mundo que envolveram em sua concha. Não posso ler nem escrever com o barulho das britadeiras durante o dia. E quando chega a noite sou incomodada pelos helicópteros, bombas e o barulho da revolução. Caramba, mas que baderna vocês estão fazendo por míseros vinte centavos!
A farpa da manifestação atingiu o shopping onde passeio com minha família, destruiu o caminho que uso diariamente e agrediu meus amigos. "Suas burguesas" foi o que elas ouviram enquanto voltavam do trabalho, desavisadas, entre uma zona de guerra que só se vê em filmes ou em gibi cyberpunk. Burguesa que sou eu, revoltei por elas que não são.
Um dia me contaram como o Brasil influenciou o sistema de compartilhamento do Facebook. Não sei se é real, mas o caso consiste na mania adorável do nosso povo em... em compartilhar tudo! Eram tantas imagens e vídeos republicados que os servidores ficaram sobrecarregados, por isso agora podemos dividir tudo usando links. E vocês podem me lembrar que é Sexta-feira, mostrar gatinhos fofos, latinhas de refrigerante com nome, memes, piadas, indiretas e afins. Ou...?
Ou podem deixar Feliciano com a corda no pescoço, podem contar para os eleitores quem é Celso Russomano e até ferrar com a nossa imprensa unilateral, como fizeram ontem. Porque os corajosos largam - em partes - o Facebook e vão às ruas! Em parte, lógico, porque hoje celular com acesso à internet não é mais só para burguês covarde - como eu - que fica em casa. E os relatos, fotos e vídeos foram postados em tempo real enquanto o nosso jornalismo super confiável mostrava o contrário!

Enquanto a mídia sensacionalista chamava as mais de dez mil pessoas que pediam não à violência, o apresentador da TV chamava todos de drogados: "Pedem paz, mas depois são pegos com crack". Meus amigos estavam lá. Meus amigos que não usam drogas. Amigos que apanharam de graça após terem se afastado da manifestação. Amigos que só tentavam voltar pra casa. Amigos que só queria exercer o direito de manifestar o que pensam - democracia?
E então? Então aquela aquela farpa infeccionou. Porque eu, a burguesinha que defende o direito de ir e vir de amigos trabalhadores agredidos verbalmente por meia dúzia de manifestantes (que não me representam), estou lá também, de forma indireta, representada por amigos e conhecidos que estavam lá no meio da revolução, exigindo não só garantir os dezoito reais mensais no bolso ao fim do mês, como questionando os atos absurdos de um governo desleal. Atos esses que me levam à reclusão e à revolta silenciosa.
Ah, claro, porque ninguém quer saber porque a burguesa covarde se escondeu na montanha enquanto pensa se volta a tomar Prozac ou não. Como esse é o meu espaço, minha concha, eu conto o motivo: a violência. A crescente e impune violência. Os estupros. Os pedófilos. E até a zoofilia "engraçada" que a mídia apresenta. Então, por favor, considerem o meu real motivo por condenar a violência. Ela tem sido a causa de todos os males. O que faz sofrer todos que amo! Sejam cristãos ou ateus, policiais ou manifestantes, de direita ou de esquerda, burgueses ou não.
Quem enche com água de todas as fontes, transborda o cálice. Um dia você é desavisada e no outro entende o que esses vinte centavos e o crescente aumento da violência, sempre impune, têm em comum. Um dia, você que é contra a violência, condena a agressão verbal dos manifestantes (que ainda não me representam) e o vandalismo dos mesmos. No outro, você lembra o quanto ficou indignada com a venda de um tal de Neymar (protagonista de uma campanha de marca de cuecas homofóbica) conseguiu ofuscar uma manifestação pacífica (no caso, a Parada Gay) nessa mídia unilateral que nos serve.
Hipocrisia por hipocrisia, quem é mesmo a defensora dos "vingadores"? Quem queria que o amigo policial não fosse condenado pela própria instituição por descer porrada no estuprador pego em flagrante (bater em manifestante pode e em bandido não)? Quem era que queria se vingar de estuprador que abusou de quem eu amo porque as autoridades nada fazem? Então, a burguesa hipócrita.
Ainda odiando a depredação do patrimônio público e pensando que a conta cai no meu bolso também, permaneço agora pensando que o resultado de um quebra-quebra questionável que ocorreu já deu frutos. Os vinte centavos podem ainda estar na tarifa e naquele "momento Rauzito" eu diria: eu vi petista questionando o PT, eu vi tucano questionando PSDB, eu vi jornalista questionando o seu próprio veículo, vi policial questionando a PM, vi viciados em futebol questionando a Copa, vi gente de direita com gente de esquerda, vi gente de esquerda com gente de direita e vi manifestante condenando a violência.
Eu vi manifestante condenando a violência! E condenando a "Bolsa Estupro", o PEC 37, o Feciciano, o Russomano, a imprensa unilateral, os políticos corruptos de todos os partidos, os homofóbicos, os machistas, os psicopatas e os babacas em geral! E, daqui da minha insignificância burguesa, por mim podem ser colocados todos is itens no mesmo saco para que sejam jogados na correnteza do rio para que nunca mais voltem!
E, por favor, que nunca mais a polícia interdite a Paulista para que os manifestantes não interditem a Paulista! Que nunca mais a polícia seja violenta para impedir que manifestantes sejam violentos! Menos. E mais ao mesmo tempo!








